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Archive for the ‘Literatura’ Category

As Horas, de Michael Cunningham, narra um dia da vida de três mulheres: A escritora Virginia Woolf, a dona de casa Laura Brown e a editora Clarissa Vaughn. Mesmo se passando em locais e anos diferentes as três histórias se entrelaçam de forma magnifica.

O livro fala de três mulheres intensas e complexas, que disfarçam os mais variados sentimentos sob uma aparência de tranquilidade e normalidade cotidiana. Penso que a linguagem do autor também é assim. A leitura flui, linha após linha, de forma tranquila e descomplicada, enquanto nas entrelinhas há um turbilhão de acontecimentos e sentimentos, que apesar de não explicitados, estão presentes. Vejo muitos assuntos no livro que poderiam ser discutidos e analisados. Falo aqui do que mais me chamou atenção.

Enquanto conta um dia na vida destas três mulheres, conta também um dia, tantos dias, na vida de tantas mulheres. A dificuldade de realizar atos tão simples, como levantar da cama, cuidar do filho, fazer um bolo, dar ordens à empregada… em outras palavras, a dificuldade de viver.

Me chamou muita atenção a questão da culpa, tão presente na vida das mulheres. A culpa por não querer sua vida centrada nos filhos. A culpa por querer ficar mais tempo deitada na cama lendo um livro. A culpa por querer uma tarde só para si. A culpa por não poder engravidar. A culpa por não ser uma dona de casa perfeita. A culpa por pensar na possibilidade da morte, em dar fim a vida. Culpa por não se sentirem plenamente felizes em suas vidas “perfeitas” de esposa, escritora, mãe, amiga, vizinha…

Vejo, no livro, a questão da inquietude, do desconforto e da inconformidade perante a vida, ao cotidiano, perante as cobranças sociais, que são, no meu ponto de vista, questões universais e atemporais. Mas vi também uma questão que considero muito atual (tendo em vista que o livro foi escrito em 1999 e que o Mrs. Dalloway, livro de Virginia Woolf, que é um dos pontos de ligação entre as três histórias é de 1923): a cobrança da doação total das mulheres ao que fazem, cobrança da perfeição, da aceitação, da felicidade.

Somos a todo momento cobradas a sermos as melhores naquilo em que fazemos. Ser feliz é uma obrigação. Somos cobradas a sermos mulheres lindas, bem vestidas, bem relacionadas, bem sucedidas, boas companheiras, mães perfeitas que abrem mãe de si mesmas pelos filhos, boas donas de casa… A não-perfeição e a não-felicidade não parecem possíveis. E por esse ponto que tanto me identifiquei com a história de Laura Brown. Sua luta contra ela mesma. Sua tentativa de tentar se adequar a sua vida “perfeita”. Ela repete para si que ama o filho, que seu esposo é bom, que está tudo bem. E o que não estaria? Não é perfeita a vida de uma mulher bem casada, com uma casa confortável para viver, com um filho que a ama e à espera de uma menina? Como não se sentir abençoada tendo um filho e esperando outro, enquanto tantas mulheres se sentem incompletas por não poderem ser mães? Quantas vezes não sentimos vontade de fugir de nossas vidas “perfeitas”? Laura e sua fuga, Laura e sua coragem é o que mais me comoveu no livro.

Ainda não li Mrs. Dalloway e não conheço a história da escritora Virginia Woolf. Não escrevi esse texto como uma resenha, nem mesmo como uma análise. São apenas impressões de uma pessoa que como Mrs. Dalloway, Mrs. Woolf e Mrs. Brown tenta passar mais um dia de sua vida cotidiana.

A baixo transcrevo algumas passagens do livro, as que mais me tocaram o coração.

 

“Ela escova os dentes, escova os cabelos e começa a descer. Para vários degraus acima do fim da escada, escutando, esperando; está de novo possuída (parece estar piorando) por uma sensação meio onírica, como se estivesse nos bastidores, próxima da hora de entrar em cena e atuar numa peça para a qual não está adequadamente vestida e para a qual não ensaiou como devia. O quê, pergunta-se, estaria errado nela”.

“Clarissa Dalloway, pensa Virginia, vai se matar por causa de alguma coisa que, na superfície, aparenta ser bem insignificante. A festa será um fracasso, ou o marido uma vez mais se recusará a notar alguma melhora que ela fez em si ou na casa. O segredo estará em transmitir, intacta, a magnitude do desespero diminuto, porém muito real, de Clarissa; em convencer por completo o leitor de que, para ela, as derrotas domésticas são tão devastadoras quanto são, para um general, as batalhas perdidas”.

“Mesmo assim, existe essa sensação de oportunidade perdida. Talvez não haja nada, nunca, que possa se equiparar à lembrança de ter sido jovem junto com alguém. Quem sabe seja simples assim. Richard foi a pessoa que Clarissa amou em seu momento mais otimista”.

“Sei tudo sobre tentar impressionar. Não é difícil. Se você gritar alto o bastante, por tempo suficiente, vai juntar gente para espiar o motivo de tanto barulho. É da natureza das multidões. Elas não se demoram, a menos que lhes dê um motivo”.  

“(…) O demônio chupa toda a beleza do mundo, toda a esperança, e no fim, o que sobra é o reino dos mortos vivos – sem alegria, sufocante. Virginia sente, nesse momento, uma certa grandeza trágica, porque o demônio é muitas coisas, mas não é mesquinho, nem sentimental; fervilha com uma verdade letal, intolerável. Bem neste momento, andando, livre da dor de cabeça, livre das vozes, consegue encarar o demônio mas tem de continuar andando, não deve virar a cabeça para trás”.

“Laura lê o momento enquanto ele passa. Eis aqui, pensa ela; lá se vai. A página está prestes a ser virada”.

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